O fora do Pedro

by - June 27, 2013


Tudo começou num belo dia de sol, eu precisei acordar cedo, pegar o metrô lotado cheio de gente fedida, depois a lotação que é lotada de gente estranha e sem noção pra poder então chegar ao Palácio. Ironico, não? Pois é. Eu estava de vestido jeans, meus cabelos estavam castanhos e ondulados, eu tinha acordado mais cedo pra passar blush e rimel nos olhos, estava aparentemente bonita, mas normal como sempre afinal, nunca fiz o tipo atraente. Estava andando rápido, porque já havia passado 15 minutos do meu horario de entrada, então passei a catraca ainda com os fones no ouvido, aparentemente tudo estava bem, e então no meio do corredor eu encontrei o Pedro. Ele estava de terno preto, com aquele pele super branca e o óculos quadrado que ficava charmoso demais em seu rosto delicado. Eu não sabia que o Pedro era o Pedro, então passando por ele fiquei de olhos bem abertos enquanto ele soltava um: "bom dia" seguido de um sorriso que deve ter durado o dia inteiro na minha cabeça. Aquele momento eterno deve ter durado no máximo 3 segundos. 

Eu não sabia que o Pedro era o Pedro. Passou muito tempo, e aquilo que tinha acontecido numa manhã qualquer não tinha passado de uma manhã qualquer pra mim com um sorriso bonito e um bom dia que nunca mais ia acontecer outra vez. Não me lembro em que momento, mas um dia o encontrei enquanto almoçava, foi quando percebi que sempre que ele sorria as bochechas ficavam vermelhas e o tornava cada vez mais lindo. Um dia na maior cara de pau resolvi mandar um bilhete dizendo: "Adoro o jeito como você sorri". Foi a coisa mais infantil que eu poderia ter feito pra alguém que usa terno e gravata. Mas fiz, no calor da emoção e daquele sorriso que melhorava meu dia. Então no meio de mais um monte de engravatados ele abriu o bilhete e discretamente não teve reação nenhuma além de ficar... vermelho. Aquilo ja me bastava. Os dias foram passando, e eu não sabia o nome do Pedro. Também não sabia onde ele ficava. O Palácio é enorme, e eu jamais iria descobrir de onde ele era, o que ele fazia e tudo mais. Deixei temporariamente pra la. 

Em algum outro belo dia de sol que encontrei o Pedro no restaurante decidi fazer uma missão quase impossível: pedi pra Fernanda (mulher do caixa) ver o nome dele no ticket de pagamento do cartão de crédito. Naquele dia eu ia descobrir que Pedro, era Pedro H. Fiquei feliz em saber. Nos assuntos do almoço eu o chamava de Pedro. Eu perguntava pelo Pedro. E ele não sabia quem era eu, que era eu. 

A luta continuava. Eu vivia a minha vida sem me prender aquele velho menino de terno e gravata. Quando eu encontrava o Pedro no almoço eu sempre sorria. Era natural, mas era só aquilo. É como sair de uma cidade e dar de cara pra vista com o mar. Era legal. Mas eu só sabia o nome dele. Um dia o Pedro veio até o meu departamento, e pra minha surpresa ele veio falar com alguém que eu conhecia, aquela era a minha esperança. Mas estava tudo bem, eu não estava desesperada e nem queria o Pedro. Eu só o achava bonito. Só queria saber mais sobre ele. Era só. Pedro nunca me olhou depois daquele "Bom dia", ele simplesmente nunca mais me disse nem um "Olá". Mas naquele dia eu queria ter a chance de dizer aquilo, nem que fosse por meio de palavras. De dizer que eu sabia que o nome dele era Pedro. Então eu dei um jeito de pedir o e-mail dele, e resolvi escrever as seguintes palavras:

Assunto: Oi Pedro
Oi, tudo bem? Sei que pareço maluca te mandando esse e-mail (tive que dar uma de detetive e buscar na internet) e talvez eu seja mesmo, mas mandei com as melhores das intenções e para pedir, se possível, que me diga olá na hora de almoçar, rs (porque eu nunca consigo). Desculpa se te assustei, mas é que eu gosto de ver seu rosto vermelho quando sorri

Beijos! Pâmella

Óbvio que eu fiquei lendo e relendo esse e-mail diversas vezes antes de mandar, até que a coragem veio e eu cliquei em enviar. Eu tinha dois endereços de e-mail, e eu não sabia se ia chegar ou não, se ele ia responder ou não, eu só mandei e fiquei esperando. Vários dias se passaram, e nada de uma resposta. Fiquei pensando várias coisas, inclusive que ele não tinha recebido o maldito e-mail de uma pessoa louca como eu. E então com muita vergonha e um sentimento estranho dentro de mim resolvi mandar mais um e-mail pra ter a certeza de que ele tinha lido:

Assunto: Sem assunto
Oi Pedro,
te mandei um e-mail já faz um tempo e você não me deu nenhuma resposta. Depois que te enviei fiquei refletindo sobre ele e me senti uma completa idiota. Mas isso não vem ao caso. Acontece que resolvi te escrever outro e-mail te pedindo desculpas, porque fiquei completamente arrependida de ter escrito algo pra alguém que não conheço. Queria que você ao menos me respondesse que leu pra eu ficar mais tranquila (se não for pedir muito).

Minhas sinceras desculpas.

Pâmella.

Pensei comigo depois que enviei: ele tem que me responder alguma coisa. Nem que seja pra mandar eu ir me foder. Sei lá, ele não existe na internet, é simplesmente impossível achar o Pedro. Ele só existe aqui, e tudo que eu sei é sua profissão, sua idade, seu nome, que usa terno e fica vermelho quando sorri. Que merda. Vou esperar. Claro que continuei encontrando o Pedro na hora do almoço, só que agora bem menos, parecia que ele estava fugindo, e pior: que agora ele sabia quem era eu e estava me evitando. Aquilo estava realmente me deixando mal, mas eu entendia, quem era eu? Ninguém.

Depois de cinco dias eu chego no trabalho e abro meu e-mail como de costume e lá estava, era dele e finalmente depois de cinco dias ele tinha me respondido alguma coisa. Eu não sabia o que era e nem fazia ideia, mas estava feliz só por ele ter escrito alguma coisa, seja lá o que eu fosse ler eu ja estava feliz: 

Sem Assunto
Pâmella,
Tudo bem? Você não tem do que se desculpar. 
Seu e-mail anterior foi gentil, mas eu tenho namorada e não gostaria de aborrecê-la. 

Pedro

Eu li o mesmo e-mail por no minimo umas 20x. Não era a resposta que eu queria ler, mas foi o fora mais bonito que eu ja recebi na vida. E confesso que as poucas palavras que Pedro me escreveu fizeram gostar mais dele. Não sei, mas depois desse dia passei a ver as coisas de uma maneira um pouco diferente. Não podemos forçar as coisas, tem de ser natural, e o admiro por ele ter sido sincero e não um cachorro oportunista como a maioria dos homens que eu conheço. Isso fez de Pedro especial pra mim, mesmo que ele nunca saiba. Continuo vendo Pedro todos os dias, não trocamos nenhuma palavra, tão pouco qualquer olhar, Pedro continua sendo o Pedro de sempre a única diferença é que agora ele sabe que eu existo, e talvez isso pra mim seja o suficiente. Pedro continua com as bochechas vermelhas quando sorri, continua usando terno, e continua me evitando. Mas se eu pudesse escrever algo de novo pra ele algum dia, eu certamente iria dizer: "Seu e-mail me dando um fora ainda esta morando na minha caixa de entrada. Olho pra ele todos os dias pra ter a certeza de que ainda existem pessoas diferentes. Obrigada pelo fora, ele me fez ver as coisas por um lado diferente."

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