Pra desapaixonar.

by - August 07, 2013

Olha, tem algumas coisas sobre mim que poucas pessoas sabem, e que talvez depois que descobrirem talvez me faça parecer menos interessante, talvez um pouco estranha, não sei. Acontece que muitos olham e pensam que sou o que na verdade não chego nem perto de ser. Calma, você vai entender. Eu espero que você entenda e não me ache meio exagerada no meu auto-julgamento. Me conheço desde que nasci, acho que sou a melhor pessoa pra falar de mim mesma, ou não.

Bem, eu nasci pequena demais. Acho que devemos começar por aqui talvez, pelo meu nascimento. Óbvio que não me lembro disso, mas já ouvi algumas histórias. Sempre me intriguei com meu nascimento, afinal nunca vi uma foto sequer de minha mãe grávida, e as vezes chego até a pensar que posso não ser quem eles dizem que sou, sabe? Mas tirando esse pequeno "defeito" ao nascer, eu acho que ocorreu tudo bem. Tirando também que minha mãe nunca me deu o peito. Ela disse que eu fazia cara feia. Vai saber porque, sempre fui fresca. Cresci indo para o Rio Paraguai pescar aos finais de semana com meu pai, eu adorava me disfarçar de menino, e os amigos dele adoravam (e eu também). Sempre brinquei no quintal de terra da minha avó, era bom demais fazer bolo de chocolate de terra preta. Eu diria que eu adorava comer terra. Era bom comer canja de galinha, de pescar lambari, de andar no mato descalça, sem frescura. De dar comidinha pros peixes, e de comer as iscas do meu pai. Ele brigava comigo, mas eu adorava - e ele também.

Fui crescendo, adorava minha escola, meus amigos. Lembro do meu primeiro dia na pré-escola. Lembro que 1x por semana tinha lanche "contra verme" e era divertido cozinhar com os meus amigos da escola, eu adorava brincar no parque de areia, e lembro de como era difícil decorar os estados e suas capitais, eu era péssima nisso. Conheci o Thiago, ele era bonito, tinha aquele cabelo bem preto e de franjinha, era branquinho e os olhos castanhos dele me deixavam encantada. Eu assistia chiquititas na época, e queria viver um amor pra sempre - mesmo que eu soubesse que não ia ser pra sempre. Eu adorava assistir a filmes de terror sozinha. Adorava jogar video-game no meu quarto sozinha e também adorava escrever meus pensamentos numa agenda que tinha um pequeno cadeado. 

Fui completando mais anos, mas eu não crescia. A idade vinha e os problemas - também. A parte ruim dessa fase eu prefiro não citar, mas eu fiquei confusa. Eu via coisas que não precisava ver. Ouvia coisas que não conseguia entender. Me lembro de uma carta de 5 folhas que meu pai escreveu pra mim e que nunca pude ler, porque minha mãe queimou dizendo que era pro meu bem. Me lembro de um dia estar do outro lado da rua da casa de minha avó com meu pai enquanto ele me falava num tom duro: "Você tem que decidir agora, é comigo ou com ela que você quer ficar?" Eu não sabia que a escolha poderia mudar tudo. E não sabia que eu tinha que ser tão responsavel com pouca idade. Decidi e desde então eu não parei mais. As opções vinham, e eu simplesmente tinha que decidir. Comecei a fazer escolhas cedo, eu diria. Escolhas que talvez reflitam na minha forma de pensar hoje. 

Depois de um tempo comecei a ficar confusa. Nada era mais como antes. Eu tinha feito uma escolha que não tinha gostado tanto assim. Eu estava confusa, eu não estava gostando. Comecei a ouvir que não precisava dizer, comecei a dizer o que não queria dizer. Comecei a guardar. Então eu guardei tudo que vi, tudo que senti, tudo que vivi. "Tudo vai passar logo, eu prometo". Então eu comecei a perceber que não podemos confiar em palavras, tão pouco em pessoas que dizem que quer o nosso bem. Meu maior erro foi confiar em pessoas que eu simplesmente achei que podia confiar. Tudo começou bem cedo, e eu acho que tudo poderia ter esperado uns 3/4 anos a mais para acontecer.

Fui crescendo, num momento me vi mudando de vida, de cidade, de estado, de casa. Foi estranho. Eu ja tinha quase 11 anos, e estava ansiosa pelo meu primeiro dia na escola. Tudo era diferente, mas eu quase não me importava com isso. Foi quando eu realmente percebi que estava em um lugar onde tudo REALMENTE era diferente de tudo que tinha vivido. Meu primeiro dia de aula foi péssimo. As pessoas (crianças que se vestiam e tinham comportamentos adultos) riam de mim e da minha mochila rosa de rodinhas da Barbie que minha mãe tinha pago uma nota. Naquela época não se usava a palavra Bullying, no máximo chacota dos "novos amigos". Foi estranho. Mais uma vez eu percebi que estava sendo forçada a crescer. A ser diferente. A me vestir diferente, ou então eu simplesmente seria deixada de lado, deixa para trás. 

Meu ensino fundamental foi estranho. Ninguém gostava de mim, e eu parecia ser uma pessoa meio chata. Eu era péssima em matematica, e eu comia merenda na escola. Eu definitivamente não era descolada. Eu era estranha e fazia teatro - eu era péssima nisso. Eu tentei entrar pro grupo dos que gostavam de Witch, mas não deu muito certo. Depois tentei ser amiga de umas patricinhas, mas também não sei ser isso. Depois tentei ser do rock, mas eu só conseguia ser eu: sem graça, estranha. Então passei para o ensino médio, e estava feliz por ter sobrevivido até ali. Então foi lá que consegui relaxar mais, descobrir e fazer as coisas que eu gostava. E também... Me apaixonei. Mas era estranho, porque a cada semana eu achava que tinha encontrado meu principe encantando, mas nunca era - sempre aparecia um muito melhor. Depois de um tempo, acho que oficialmente posso dizer que encontrei um namorado (porque os anteriores eu não consigo contar como namorados) Na verdade eu encontrei ele no momento errado. Eu nunca fui boa nesse assunto. Ele namorava, e não havia nada que eu pudesse fazer quanto aquilo. Eu simplesmente tinha que esquece-lo - mas antes, resolvi comunica-lo sobre o que eu sentia, o que talvez tenha me rendido bons frutos algum tempo a frente. Ele parecia de longe uma pessoa legal pra se namorar. E foi. 

Depois de algum tempo muitas coisas aconteceram. Eu não ficava satisfeita com o que tinha. E sempre queria aquilo que eu não podia ter, esse sempre foi um grande defeito meu, que talvez hoje nem seja mais tão forte assim. Destrui tudo. Aprontei uma "daquelas" e abri mão de uma pessoa que talvez pudesse estar do meu lado até hoje, ou não. Logo depois comecei um outro namoro - que durou 3 anos. Eu realmente achei que iamos nos casar - mas não rolou. Todo mundo dizia que não ia rolar. Se todo mundo tivesse me avisado como ia ser antes, e eu tivesse certeza que ia acontecer talvez tivesse pulado essa etapa. Eu gostava dele. Aprendi muito com ele. Aliás, aprendi grandes coisas com meus namorados. Eu errei demais, e aprendi muito com isso. Infelizmente eu não conseguia mais achar graça, meu brilho nos olhos se perdeu e não fazia mais sentido estar ao lado dele - depois de 3 anos juntos - eu simplesmente me sentia sufocada e quis terminar. Foi difícil. Foi estranho. Afinal de contas você vive 3 anos com alguém e planeja coisas e depois simplesmente isso se acaba do nada, você se sente estranho, obvio. Sem muitos detalhes entrei em outro relacionamento. Dessa vez de um jeito que eu nunca tinha vivido. Ele lá bem longe e eu bem aqui, onde sempre estive. Foi um grande aprendizado. Foi difícil, cada parte foi importante. Das últimas lições, eu diria que foi a mais importante que tive que aprender nos últimos tempos. Foi estranho, e ainda é estranho. Mas as vezes a gente precisa aprender, repassar, e guardar só o que ficou de bom.

Sumariando minha adolescência, eu só namorei. Não tive essa coisa de balada, de ficar louca, de usar drogas, de beijar muitos, transar com todos, de "aproveitar a vida". Tudo que fiz e conheci foi com os namorados que tive. Ganhei muitos amigos por tabela, que alguns eu conservo até hoje - outros eu prefiro ficar bem longe. Com toda certeza sinto muita saudade dos 2 anos que passei fazendo faculdade. Fiz alguns amigos, me sentia parte do grupo, era eu. Entre todas essas fases, conheci e deixei de falar com muitas pessoas, e sinto muito por isso. Algumas pessoas são tão... Superficiais. É estranho. Mas aprendi a me acostumar com isso também. 

Hoje eu tenho uma vida normal, eu diria. Tenho meu trabalho (que ainda não esta do jeito que eu quero, mas que pretendo melhorar muito), tenho oportunidade de fazer as coisas que eu gosto, de comprar o que me agrada, de sair com alguns amigos de vez em quando, tenho pessoas que me fazem bem, que me mostram que a vida ainda tem muita coisa boa reservada pra mim, que me levantam quando estou triste e desmotivada - ter pessoas assim é importante - pessoas que eu posso dar um abraço, que estão perto de mim quando eu preciso, que simplesmente dizem que eu tinha que passar por tudo que passei pra ser quem eu sou hoje. Ainda estou cheia de defeitos que incomodam não só a mim, mas há muitas pessoas - mas estou trabalhando nisso. 

Não tenho planos para o futuro. No máximo ando pensando no que posso fazer, em quais são as minhas possibilidades. Mas prefiro não planejar mais a longo prazo. Quero viver mais o meu dia-a-dia. É dificil, porque parece que a cada dia que passa os dias vão ficando mais curtos quando se tem muitas tarefas e mais longos quando não se tem nada a fazer. Estou tentando começar a construir minha vida. Construir sonhos e desejos que dependam mais de mim. Que comecem por mim. Também ando tentando me aproximar mais de quem eu gosto. De sentir mais, de dar mais carinho há quem mereça. A ser menos fria, menos grossa - talvez mais humana. 

Minha cabeça anda confusa sim, mas  minha vontade de melhorar é maior do que a minha vontade de simplesmente estar aqui vivendo por viver. Não sei por onde começar, mas sei que logo vou me encontrar. Talvez essa seja uma fase que eu precisa viver com sucesso. Vou tentar. Eu mereço me dar essa pequena grande chance de tentar. Algumas histórias me parecem mal resolvidas, mas cheguei a conclusão de que algumas coisas simplesmente vão continuar sendo "alguma coisa" pra "alguém". Ok, esse texto não ficou como eu queria que ficasse, mas fica valendo. Ao menos você (que esta lendo até aqui) fica sabendo um pouco mais sobre o que sou. Talvez você não se desapaixone, mas se você pular algumas páginas para trás vai entender que tem muitos motivos pra achar que eu sou meio desapaixonante ao mesmo tempo que pareço apaixonante. Acho que preciso de pelo menos uns 3/4 anos pra contar tudo que quero num texto, e ele ficaria enorme e cansativo - e talvez ninguém quisesse ler, ou entender mais sobre minha história sem graça.

Um dia eu vou escrever um livro só pra contar sobre o que vivi.
Mas ainda preciso treinar muito.

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